A literatura me surgiu primeiro como vontade íntima, forte e impulsiva. Fluente e picante igual água-viva e suas substâncias lançadas pelos tentáculos. A mim, emergiam de belo lago azul e tomavam todo meu corpo. O topo da cabeça impetrava palavras, gritava frases e exigia rimas e grandes histórias.
Naquela época, a enxada ainda participava ativamente em meus dias. O arado abria sulcos de terra ao semeio do trigo. O milho a penetrar a terra em batidas de catracas com separação de dois a três grãos por cova.
Na mesa, muitas vezes o alimento se fazia escasso para a dúzia de bocas famintas. Na ponta do refeitório, o cabo de aço de pequena faca ansiava cair sobre a cabeça. A ameaça se impunha ao comando da turma.
As primeiras narrativas da juventude pulsavam contos de amor em intenso romantismo: lírios e tulipas em pleno florescer. Algo de namoro juvenil e muito de sentimentos por paisagens. O transcurso de acontecimentos naturais ilustravam lindas faces da vida. O velho sobrado de madeira habitava em minhas entranhas.
A roça doía diariamente e escaramuçava tristeza interior. Nasci naquele Segredo, Vacaria, RS, e escondia muitos silêncios em mim. Cobria-me de vergonha de ser Admir Ninguém, pobre e isolado. Porém, sorvia o sonho de ser escritor, e outros que me impunham mais timidez.
Na obrigatoriedade de andar, esperançava-me de vencer e realizar o sucesso. Antes da sentença, incendiava roçadas e a fumaça sepultava desejos. Além das cinzas, observava brotos surgirem verdejantes, macegas a formarem arbustos.
O rosto de homem regurgitava a inspirar paixões, o semblante de mulher fluía a acariciar sensibilidades a se descortinarem. Interiormente, o coração batia tambores enquanto os pés deslizavam por mundos imaginativos e ilusórios. Todavia, havia lugar para mim neste cenário de rimas.
Então, desfolhei fotonovelas de revistas em leituras lancinantes. Relia e admirava os personagens em cenas inventadas sobre palcos que também edifiquei. Se o compêndio contava romances, meus olhos procuravam saber o que se escondia por trás das letras.
Encantei. Minha alma cantou sinfonias que só eu ouvi. Cachoeiras de águas límpidas jorravam sem cessar em particulares papéis que escrevi sem letra alguma. Apenas desenrolei pensamentos do novelo guardado em meu profundo ser.
Em manhã de prometer chuva, saracuras cantavam na beira do banhado próximo. Tomei a espingarda e desembarquei atrás de frondosa árvore. A pernalta acariciou a taipa de pedras e tasquei a bomba. A bala encontrou a cantarola e a derrubou do outro lado. Assim morri muitas vezes e em vários tempos nesta sina de ser poeta.
Vieram outras leituras, longos contos narrados por escritores famosos em que me afoguei. Quando os ipês florescem, sempre lembro de Érico. Se aparecem brumas, recordo as de Avalon. Alguma página envenenada reflete o esplêndido Eco. O Amado que adorava cravos também dormitava por canela, sem ser uma as minhas.
Enfim, entre seres nada castos, anovelavam Castro Alves. Já a enrodilhar rosas com ferro e fogo me deparei com Guimarães. Deixei meu bom dia sonhador e segui minha trilha pelos trilhos do trem que apitava meu processo. Saí de próximo ao rio Turvo a fim de colher flores e encontrei só cunhas a tapar estradas de literatura.
Na caminhada, floresceram poemas, pequenos contos, crônicas, matérias de jornais em que me envolvi como forma de ganhar o pão de cada dia. Só mais tarde pisei "Presságio", algo que mistura realidade com ficção. Esta estreia saiu após desistir de outras tentativas.
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A avançar muros, passei a usar figuras de animais para contar histórias em boa parte verdadeiras. "Se o Ratinho Gero Falasse" miou sua trajetória aromatizada de alegorias a enriquecer seu jardim. Lá, "A Palavra é Pá Que Lavra" desvendou poemas, até nascer "O Gato Que Não Morria". As aventuras resistiram igual o resistente gatinho. Assim se desbravaram outras histórias, ainda pendentes de enredo e final.
Com a aposentadoria e melhores condições de vida, permiti-me dedicação com mais afinco na realização de meus ideais. Escrevi novos enredos e reli e reescrevi vários que plantei aqui e ali. Descobri que nunca parei de desenvolver escritos, de diferentes maneiras. O computador favorece muito. Os desejos dedilham seus intentos.
Assim, publiquei “Cantiga aos Cisnes”, “Consciência e Julgamento” e os doze contos infantis juntados em “Os Pais Contam, Os Filhos Cantam”. Sempre no intuito de aproximar o afeto familiar e resgatar sentimentos e atitudes que os eventos dos dias atuais desvalorizam.
Minha vontade é prosseguir, sem esquecer de construir espiritualidade em mim e favorecer a quem quiser avançar comigo. A ideia é se ter o viver com consciência, em busca de dias melhores.


